• Levi Soares

Transtorno de Ansiedade Generalizada



O que é?

O termo ansiedade é bastante utilizado no senso comum para exprimir um sintoma bem comum na vida de muitas pessoas. Trata-se de uma reação do indivíduo, nem sempre patológica, a determinadas situações da vida; como por exemplo nas vésperas de uma entrevista de emprego.


Trata-se, a princípio de uma reação onde o indivíduo, ao vislumbrar uma situação de ameaça futura, antecipa-se para precaver-se de possíveis dificuldades e enfrentar o problema. Portanto, a princípio, a ansiedade tem uma finalidade positiva. São vivenciadas sensações corporais as vezes incomodas, como taquicardia, aperto no peito, pensamento acelerado, dentre outras.


Rollo May inclusive disse certa vez:

“Muitas pessoas estão ocupadas só para disfarçar a ansiedade, seu ativismo é um modo de fugir de si mesmas. Elas obtém um possível e temporário senso de vivacidade correndo de um lado para o outro, como se estivessem realizando algo só pelo fato de se movimentarem, ou como se estarem ocupadas fosse uma prova de sua importância” (MAY, 1968)

Com isso, afirmou que a ansiedade é um mal que pode afetar pessoas bem sucedidas, com uma vida bem movimentada e que aparentemente, não possuem qualquer tipo de problema mais sério. Afinal, como dito anteriormente, a ansiedade a princípio possui uma funcionalidade positiva, sendo adequada em determinadas ocasiões da vida.



Mais ainda: diversas pessoas conseguem tolerar e conviver com os sintomas do Transtorno de Ansiedade Generalizada (afinal, a prevalência ou duração mínima dos sintomas é de 6 meses para o diagnóstico). Por isto não é incomum que determinadas pessoas cheguem ao consultório com queixas que já duram anos e que, apesar disso, conseguem sustentar minimamente suas rotinas.


A grande questão é quando esta reação começa a se tornar rotineira, perdendo a sua finalidade e se disseminando, aumentando em frequência e intensidade. Assim, estes sintomas podem estar ligados a um quadro de adoecimento psíquico (não necessariamente de um transtorno de ansiedade generalizada), comprometendo a saúde mental do indivíduo e sua qualidade de vida.


É um transtorno que, no mundo inteiro, tem prevalência de 12 meses entre 0,4 a 3,5% da população adulta. Destes, quase 60% são do sexo feminino. Nos homens, é comum o quadro ser associado ao uso de substâncias ou dependência química. Este quadro é mais comum em países desenvolvidos. Acredita-se que 1/3 dos quadros tem bases genéticas. Também é considerado como um quadro que é extremamente associado a afastamentos do trabalho e casos de invalidez.


Além disto, a sintomatologia do Transtorno de Ansiedade generalizada é muito similar a outros transtornos mentais. Não é incomum que as queixas sejam confundidas com quadros de Transtorno Bipolar, Depressão, Transtorno Obsessivo Compulsivo, Transtorno de Estresse Pós-Traumático, dentre outros. Além disto, diversas medicações apresentam efeitos colaterais similares aos sintomas de ansiedade.

O mecanismo

Após a primeira crise, é comum que a pessoa passe a viajar com maior cuidado pequenos sinais do seu corpo. Assim, pequenas alterações no batimento cardíaco, por exemplo, que passavam despercebidas passam a ser notadas. Estas reações podem inclusive ser normais, porém, são interpretadas como o início de uma crise.


A partir disto, uma resposta nervosa é encadeada. O nervosismo inclusive traz algumas sensações corporais similares à da ansiedade: tremores, aumento dos batimentos cardíacos, suderose, dentre outros. O indivíduo passa a acreditar passar por uma crise e os sintomas se agravam, já que sente-se frustrado em não controla-los. Está fechado o ciclo.


Portanto, ausente este encadeamento, dificilmente podemos falar em um Transtorno de Ansiedade de qualquer espécie. Além disto, não é incomum que estes sintomas levem o indivíduo com frequência a emergências médicas, tanto devido a severidade das queixas físicas como devido a nítida sensação de uma morte eminente. Estas idas costumam não detectar quaisquer alterações corporais que justifiquem a crise.


Lembramos duas coisas: a primeira é que reações ansiosas são extremamente comuns e esperadas em diversos transtornos mentais fora do dito espectro ansioso como: depressão, transtorno bipolar e transtornos de personalidade. A segunda: outras doenças, como no caso da hipertensão, podem provocar sintomas muito parecidos com os da reação ansiosa, como por exemplo taquicardia.

Sintomas

Os sintomas do transtorno, como dito anteriormente, são difusos e de fácil confusão com outras condições. Os mesmos devem estar presentes num período mínimo de 6 meses, ocorrendo na maior parte dos dias da semana. A presença de aspectos como uso de medicação ou doença física dificultam bastante qualquer tipo de avaliação.

  • Ansiedade, preocupação excessivas e expectativas apreensivas em diversas ocasiões e atividades (como no ambiente familiar, de trabalho, por exemplo);

  • O indivíduo considera difícil ou impossível controlar a ansiedade;

  • Inquietação ou nervosismo;

  • Cansaço e sensação de fadiga;

  • Dificuldades de concentração ou sensação de “branco” na mente;

  • Irritabilidade;

  • Tensão ou rigidez muscular;

  • Perturbações no sono (dificuldade em iniciar ou manter o sono);

  • Sensação de agitação ao despertar;

  • Sintomas físicos durante os episódios de ansiedade como: taquicardia, sudorese, falta de ar, formigamento, gastura e/ou sensação de que vai morrer, sem causa outra causa clínica.

Estes sintomas não ocorrem e decorrência ao uso de substâncias (álcool, drogas) ou devido a medicamentos.

Fatores de Risco

  • Existência de diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Generalizada na família;

  • Uso de substâncias (álcool, drogas ilícitas, cafeína);

  • Uso de determinadas medicações;

  • Crises de ansiedade recorrentes, que muitas vezes implicam na ida a emergências médicas e ausência de qualquer quadro clínico que as justifique.


Tratamento

Embora alguns quadros tenham uma taxa de remissão (diminuição da frequência e intensidade dos sintomas) somente com o acompanhamento psiquiátrico, é importante lembrar que a ansiedade muitas vezes está intimamente associada a aspectos ambientais: a pessoa vivencia suas crises em contextos específicos, como no ambiente familiar. Por isto, a psicoterapia se mostra como uma ferramenta de grande utilidade para o tratamento global do transtorno.

  • Psiquiatria: o tratamento consiste basicamente e consultas com o psiquiatra, que tendem a ser espaçadas (ter sua frequência diminuída) de acordo com os resultados. São prescritas medicações que auxiliam de forma consistente no controle dos sintomas. Ao longo das consultas, o psiquiatra também investigará questões ambientes, mas de forma limitada, dado o espaço de tempo que em geral é de uma consulta de 1 hora ao longo de 15 dias.

  • Psicoterapia: neste caso, o tratamento consiste na escuta e identificação de eventos e situações que potencializam a ansiedade. Sua eficácia se dá, inclusive, de forma satisfatória quando o quadro ainda é considerado leve, não sendo necessária outra terapêutica nestes casos. Mediante encontros semanais, o paciente aborda de forma mais minuciosa as situações onde as crises ocorrem.

Além disto, o próprio ambiente terapêutico colabora com o processo. Afinal, nem sempre as pessoas se sentem confortáveis e conversar sobre o assunto. Assim, a própria “descarga” emocional já proporciona uma considerável melhora no caso.

O terapeuta busca a princípio estabelecer os sintomas. Nem sempre as pessoas conseguem ser precisas nesse quesito, já que as crises de ansiedade envolvem uma sensação extremamente desagradável, o que dificulta na identificação precisa do que é sentido. Concomitantemente, o terapeuta esquadrinha as principais ocasiões de crise, fornecendo para o paciente uma visão clara das situações que devem ser evitadas e, quando não, de como as mesmas devem ser enfrentadas.


Práticas Integrativas: Diversas terapêuticas também auxiliam no abrandamento dos sintomas. É o caso por exemplo da massoterapia, acupuntura, meditação; dentre outras. Estas atividades costumam auxiliar no controle da ansiedade tanto durante as crises como na sua prevenção, fornecendo ao indivíduo uma gama de comportamentos que auxiliam no relaxamento e, consequentemente, numa maior capacidade de lidar com os episódios de ansiedade.

Estes profissionais também podem prescrever exercícios de relaxamento que devem ser praticados com grande disciplina e que, além de contribuírem com as crises, também auxiliam no processo de promoção à Saúde.


Logoterapia

Viktor Frankl foi provavelmente o criador (por volta de 1930) de uma técnica extremamente eficaz em casos de ansiedade, que posteriormente viria inclusive a ser incorporada por outras abordagens psicológicas, como a Escola Comportamental. Trata-se da Intenção Paradoxal, que foi extensamente sistematizada, trabalhada e testada por diversos psicólogos no mundo inteiro, apresentando resultados animadores.


A técnica consiste basicamente no rompimento da cadeia ansiosa. Pode parecer estranho, mas solicita-se ao paciente que deseje seu objeto de medo, ao invés de fugir. Pede-se que force e provoque os sintomas. Com isto, o elo da frustração é quebrado, afinal o que mantém a ansiedade é justamente sua evitação. Esta técnica deve ser prescrita e acompanhada por um profissional qualificado, não existindo qualquer garantia quando utilizada de forma autônoma pelo paciente.

A Logoterapia inclusive nos lembra que a falta de sentido muitas vezes pode gerar um medo excessivo da morte. Isto ocorre pelo indivíduo ter a nítida sensação de vazio existencial em sua vida, passando a acreditar que a morte implicaria em desperdício de sua vida. Por isto, não é incomum pacientes não saberem identificar muito bem o que temem na morte.


Dica:

Uma técnica de respiração é bastante eficaz no tratamento a curto prazo, em geral quando o não existem condições para preencher um diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Generalizada. A pessoa deve focar exclusivamente em sua respiração no momento em que sente que uma crise se aproxima.

Ao contrário do que estamos acostumados o ritmo é o seguinte: durante a inspiração (quando se puxa o ar pelo nariz), a barriga cresce e se expande. Durante a expiração (quando se solta o ar retido), a barriga faz um leve movimento de contração. Estabelece uma contagem de segundos de inspiração e em seguida de expiração ajuda a manter o foco na respiração.

Fechar os olhos também auxilia na concentração, já que eliminamos os estímulos visuais. Durante o processo, o ideal é que você se deite ou sente-se, numa posição confortável e com a musculatura o mais relaxada possível. Deve-se ainda evitar ao máximo fazer qualquer tipo de barulho durante a respiração, fazendo com que o ar entre e saia de maneira suave.


É importante que esta técnica seja praticada, isto é, você não deve utilizá-la somente nos momentos que se sentir ansioso. É normal também encontrar dificuldades no começo, mas com a repetição, a técnica vai ficando cada vez mais precisa, tendo seus resultados aumentados.



Referências

American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5ª Edição. Porto Alegre: Artmed, 2014.

FRANKL, Viktor Emil. Psicoterapia e Sentido da vida: Fundamentos da Logoterapia e análise existencial. São Paulo: Quadrante, 2016.

MAY, Rollo. La angustia normal y patológica. Buenos Aires: Editorial Paidós, 1988.

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