• Levi Soares

Reflexões psicológicas e filosóficas sobre o amor: um sentimento para além de nós mesmos



Muito se fala hoje sobre as novas relações amorosas. Em tempos de liberdade sexual e novos modelos de relacionamento, muitas vezes ficamos confusos e estranhamos determinados modismos. Por isto, é importante trazer uma leitura filosófica e psicológica acerca deste fenômeno tão humano que é o amor.


Viktor Frankl nos ensina o seguinte:

“O amor, diríamos, faz-nos contemplar a imagem de valor de um ser humano. Assim, leva a cabo uma realização francamente metafísica” (FRANKL, 2016)

Por realização metafísica, devemos entender como algo transcendental, que nos eleva para além do mundo da matéria e de nós mesmos. Portanto, a essência do amor consiste nesta visão de uma pessoa única em suas qualidades e defeitos, isto é, para o bem e para o mal. É precisamente este olhar que proporciona um sentimento autêntico.


É exatamente no fato de se enxergar o(a) amado(a) como um ser singular e sem igual que reside o enlace romântico. Este, por sua vez, é bem diferente do desejo sexual ou da paixão, justamente por centrar-se no que há de mais elevado na pessoa.


Por isso, o filósofo Roger Scruton nos lembra que:

“À pessoa que deseja Jane, é absurdo perguntar “Por que não Elizabeth?” Ela também serve. Afinal, o que ele quer é uma ação da qual Jane é constituinte e não só um instrumento” (SCRUTON, 2015).

Isto se dá exatamente pois, no caso do amor autêntico, o que está em jogo é aquele caráter singular e único de cada pessoa, e não apenas desejos sexuais ou uma paixão. Não se pode, portanto, substituir aquele(a) que se ama, justamente por este último(a) ser quem ele é em toda a sua individualidade.


Viktor Frankl ainda nos ensina que o amor autêntico só acontece por situar-se na terceira esfera da pessoa: enquanto o desejo sexual ocorre na esfera corpórea e a paixão na esfera psíquica, o amor se consuma justamente na dimensão noética, que é justamente aquela que envolve a liberdade, as características únicas e a transcendência do ser humano. Esta última, obviamente, envolve as esferas anteriores, sintetizando-as num sentimento mais elevado.


Por isto, o criador da Logoterapia afirma que:

“A atitude monogâmica é, nestes termos, a um tempo: a última fase da evolução sexual; meta final da pedagogia sexual” (FRANKL, 2016).

Esta afirmação está longe de se situar num ponto de vista moralista ou ético. Afinal, quando se leva em consideração o aspecto individual e irrepetível da pessoa amada, é natural que o amor centre-se neste aspecto, levando a uma escolha voluntária por vivenciar este sentimento apenas com aquele ser único.

Contudo, as esferas corporais e psíquicas podem continuar a atuar, fazendo com que muitas vezes se estabeleça algum tipo de atração por outras pessoas. Entretanto, no caso do amor autêntico trata-se de uma escolha. Não deve o leitor pensar, portanto, que a pessoa que nutre o amor autêntico não esteja passível de falhas ou deslizes nestes aspectos.


Por fim, é importante lembrar que este aspecto noético já explicitado leva a uma noção de transcendência. Aqueles que se amam vão além de si mesmos, participando de algo maior no fenômeno do amor. Como bem esclarece Roger Scruton, esta condição naturalmente fica clara na constatação de que um:

“Fato muito bem entendido pelas religiões tradicionais, as quais veem, todas, a união sexual como um “rito de passagem” em que toda sociedade está envolvida e que produz uma mudança existencial naqueles que une. Essa mudança existencial demanda uma bênção, para ser erguida do reino do apetite mútuo e refeita como união espiritual” (SCRUTON, 2015)


É justamente nesta elevação que reside o propósito máximo do amor, inclusive enquanto uma das possibilidades de realização do sentido da vida. O amor deve ser compreendido, portanto, como algo a ser construído e buscado, em meio a todas as dificuldades e percalços que envolvem este sentimento que faz com que sejamos algo maior que nos mesmos justamente através e na pessoa amada.


Referências

FRANKL, Viktor Emil. Psicoterapia e Sentido da vida: Fundamentos da Logoterapia e análise existencial. São Paulo: Quadrante, 2016.

SCRUTON, Roger. O rosto de Deus. São Paulo: É Realizações, 2015.

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