• Levi Soares

O aspecto social da loucura



Loucura costuma ser o termo que as pessoas utilizam para se referir a transtornos mentais de uma forma geral. O louco, portanto, é aquele que não se encontra que esta com suas faculdades mentais comprometidas, que está fora do que chamamos de “normalidade”.


Por isto costumamos enxergar as pessoas que sofrem com algum transtorno mentais como “imprevisíveis”, isto é, capazes de fazer coisas que não aconteceriam caso a pessoa estivesse em seu “estado normal”. Naturalmente, esta imprevisibilidade possui uma dose de verdade. Contudo, está longe de ser aquilo que as pessoas acreditam ser a loucura.


Michel Foucault é um dos principais estudiosos da loucura. Em sua obra, comenta que a forma como as pessoas enxergam a loucura sofre transformações ao longo do tempo e nas diferentes culturas do mundo. Isto quer dizer que um comportamento louco, em determinadas circunstâncias, pode não ser considerado loucura.


Vamos a um exemplo. Imagine que você está em sua casa e acabou de sair do banho. Após se enxugar você lembra que esqueceu suas roupas em seu quarto, que fica do outro lado da casa. Você então, sem toalha, cruza a sala e entra no corredor que dá acesso ao seu quarto. Lá você se veste, tudo dentro da normalidade.


Agora imagine que você faz estritamente a mesma ação: toma banho, esquece as roupas e vai busca-las em seu quarto. Contudo, seus parentes vieram lhe visitar e estão conversando na sala. Você certamente se sentirá embaraçado e tentará escapar desta situação o mais rápido possível. Seus parentes certamente pensarão: “está louco(a)”.


Percebemos com este exemplo que um mesmo comportamento varia de acordo com o aspecto social. Isto significa que cada sociedade estabelece aquilo que chamamos de normalidade, isto é, os comportamentos que esperamos das outras pessoas e como elas também desejam que ajamos.


É graças a estes comportamentos que a sociedade “funciona”. A loucura, portanto, pode ser entendida como um comportamento ou atitude que desvia desta normalidade, do que é esperado dentro de uma sociedade.


Existem inclusive transtornos mentais que são bem mais comuns em uma parte do mundo, isto é, a uma cultura específica. É o caso por exemplo da múltipla personalidade, ou transtorno dissociativo de identidade como é chamado no DSM V. Este diagnóstico é muito mais prevalente nos estados unidos do que no resto do mundo. (APA, 2014)



Contudo, precisamos deixar claro que as entidades clínicas existem, apesar da visão social que as atravessa. No bom português: a esquizofrenia, por exemplo, é uma transtorno mental, amplamente descrito por estudiosos. A visão social da esquizofrenia não é a sua origem, mas uma consequência do surgimento da esquizofrenia em um meio social.


Isto quer dizer que um esquizofrênico é um esquizofrênico em qualquer lugar do mundo do ponto de vista diagnóstico. A forma como as pessoas o enxergam e o tratam, obviamente varia e, inclusive, pode interferir na piora ou na melhora do quadro.


É neste contexto que poderemos iniciar uma discussão mais profunda sobre a luta antimanicomial. E este será o tema do nosso próximo post: Afinal, o que é um manicômio? Eles ainda existem?

REFERÊNCIAS

American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5ª Edição. Porto Alegre: Artmed, 2014.




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