• Levi Soares

Dica de Livro: “O apanhador no campo de centeio” e o vazio existencial.



No post Depressão em foco: o que é? Sintomas, fatores de risco e tratamento abordamos a questão do vazio existencial, um sentimento bastante comum na atualidade. Pensando nisto, preparamos uma dica de leitura onde falaremos tanto do enredo da obra como do tema que citamos. O livro é “O apanhador no campo de centeio”, escrito pelo norte-americano Jerome David Salinger em 1951. Foi considerada uma das obras literárias mais marcantes do século XX.


Alguns afirmam que esta foi uma obra que inventou uma geração. Explico: o livro narra a história de Holden Caulfield, um adolescente mal-humorado que leva uma vida pra lá de normal. A trama é um desenrolar de fatos banais que são abordados sob a ótica existencial do personagem. Sentimentos de tédio, revolta, solidão e desesperança são a tônica do livro. Não estranhe ter se identificado(a), certamente você não foi o(a) único(a).


A narrativa da vida de Holden Caulfield marcou profundamente a juventude norte-americana daquele período. Isto aconteceu por representar justamente o espírito de uma época, que era aquela tediosa sensação de vazio vinda do progresso visto no pós-guerra. Contudo, a discussão acerca de o “Apanhador no Campo de Centeio” ter influenciado uma geração ou se foi apenas um retrato da mesma fica para uma outra hora.


Continuando, o livro narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield, um jovem nova-iorquino rico de 17 anos. Tudo começa após uma eminente reprovação do personagem em seu colégio (na verdade um internato). Ele então está a caminho de casa e reflete sobre tudo que viveu, deixando claro ao leitor a forma como enxerga o mundo ao seu redor.


Antes de retornar a casa de seus pais e enfrentar o esporro, o nosso protagonista decide se encontrar com algumas pessoas especiais em sua vida (um professor, uma ex-namorada e sua irmãzinha) para tentar explicar a elas todo aquele furacão de sentimentos que estavam em sua cabeça.


Esta é a trama. O livro surgiu num momento onde não existia uma produção cultural específica para jovens (como vemos hoje em dia). Era uma época onde os jovens não eram levados a sério e o Apanhador foi o provavelmente o primeiro livro a captar e transmitir todo um universo que até então era vivido na solidão de cada adolescente.


O livro trata justamente deste período da vida: quando já não somos mais crianças para não assumirmos nenhuma responsabilidades mas também não somos adultos para tomar decisões e estabelecer o rumo de nossa vida. Neste meio tempo, encaramos um mar de possibilidades e a falta de maturidade para estarmos certos de para onde queremos ir. Em outras palavras, o sentimento de vazio existencial.





Viktor Frankl, mais ou menos na mesma época, assim definiu o Vazio existencial:


“A missão do médico (e do psicólogo), de ajudar o paciente a alcançar uma concepção de valor e uma cosmovisão – a própria do paciente! – é, numa época como a atual, tanto mais urgente quanto é certo que 20% das neuroses aproximadamente são condicionadas e provocadas por aquele sentimento de ausência de sentido, que eu defini como vazio existencial. O homem não dispõe de um instinto que, como sucede aos animais, lhe dite o que tem que fazer, e hoje em dia já não há uma tradição que lhe diga o que deve fazer; em breve, também não saberá o que quer propriamente e terá que estar preparado, o quanto antes, para fazer o que outros quiserem dele; por outras palavras: tornar-se-á um joguete nas mãos de chefes e sedutores autoritários e totalitários” (FRANKL, 2016)

Frankl percebia que muitas pessoas adoeciam justamente em decorrência deste sentimento de vazio existencial. Afinal, quem não possui um sentido para vida, naturalmente sente-se perdido. E quando a pessoa se convence de que o sentido pode não existir, então nasce um sentimento de desespero. É precisamente sobre este sentimento que o “Apanhador no Campo de Centeio” falará.


Uma das cenas do livro que me vem a cabeça é quando Holden está em um táxi e passa na frente de um lago que fica congelado durante o inverno. Então se pergunta: “para onde os patos vão no inverno?”. Este questionamento pode ser compreendido como: “para onde eu vou quando sinto que minha vida já não tem um sentido?”, já que é exatamente esta a atmosfera do personagem.


O(a) leitor(a) pode se perguntar: “mas por que eu procuraria algo tão triste e depressivo? Já não bastam as tragédias da minha vida?” Bem, ler sobre este tipo de sentimento costuma nos ajudar justamente por nos colocar em contato com ele, pois na leitura compartilhamos nossas dores, nossos medos e nossas angústias com o autor e os personagens.

Além disto, é um clássico da literatura mundial. Caso pense em adquirir, sugiro a versão da “Editora do Autor”. Encerro com dois trechos do livro:


“Tem gente que passa dias procurando alguma coisa que perdeu. Eu acho que nunca tive nada que me importaria muito de perder. Talvez por isso eu seja em parte um covarde” (SALINGER, 1998)


§


“Esta queda para a qual você está caminhando é um tipo especial de queda, um tipo horrível. O homem que cai não consegue nem mesmo ouvir o baque de seu corpo no fundo Apenas cai e cai. A coisa toda se aplica aos homens que, num momento ou outro de suas vidas, procuraram alguma coisa que seu próprio meio não pode lhes proporcionar. Ou que pensavam que seu próprio meio não poderia lhes proporcionar. Abandonam a busca antes de começa-la de verdade” (SALINGER, 1998)




Referências

FRANKL, Viktor Emil. Psicoterapia e sentido da vida: fundamentos da logoterapia e análise existencial. 6ª Edição. São Paulo: Quadrante, 1998.

SALINGER, Jerome David. O apanhador no campo de centeio. 18ª Edição. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012.

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