• Levi Soares

Black Friday e o abismo do vazio existencial




A Black Friday está chegando. No momento em que escrevo o mercado se aquece, com promoções em praticamente todos os setores de produtos e serviços. A data surgiu nos anos 90, sendo tradicionalmente um dia após as comemorações do Dia de Ação de Graças nos Estados Unidos. O próprio nome, para mim, já traz um significado sombrio: Sexta-feira negra.

Retomo a questão do nome logo mais.

Um ponto que poucas pessoas atentam é que o sucesso da Black Friday não se dá somente em função na baixa dos preços. Naturalmente, descontos aumentam o fluxo de vendas, mas toda uma conjuntura social e individual também exerce um papel importante no sucesso da data.

São eles: a solidão, a hiperconectividade, e o sentimento de pertencimento.

As pessoas hoje se encontram cada vez mais isoladas, principalmente devido as longas rotinas de trabalho. Surge um sentimento de tédio, que gera obviamente uma busca por desejos, por preenchimento. Dentre eles, obviamente, destaca-se o desejo por produtos.

A solução para esta questão veio com a internet: as pessoas passam a interagir cada vez mais através de mensagens a distância e tendem a ficar escravas da internet. Afinal, lá a cada segundo uma novidade pode acontecer: uma notícia, uma mensagem de um amigo... um desconto que dura apenas 3 dias.

A hiperconectividade é reflexo da revolução tecnológica. Hoje, todos nós estamos conectados 24 horas a um aparelho smartphone. Isto gerou uma facilidade sem precedentes para os vendedores: você pode adquirir um produto do conforto de sua cama, com praticamente 3 cliques na tela. Ele chega em sua casa em questão de dias. Esta facilidade facilita com que a impulsividade do comprador seja cada vez mais explorada.

Num mundo individualista, onde as tradições e costumes são questionados diariamente, é natural que o ser humano sinta-se ilhado. Quase como um reflexo da solidão, qualquer coisa que desperte um sentimento de pertença, de fazer parte de um grupo, mobiliza as pessoas. É o caso por exemplo do fanatismo com os times de futebol.

No mercado, o sentimento de pertencimento tem um papel crucial. Inconscientemente, as pessoas buscam produtos que digam quem elas são, que as ligue de alguma forma a um determinado grupo. Uma marca de camiseta, um computador específico para jogos, um modelo de carro são exemplos.

Reforço: este é um movimento inconsciente, do qual a maioria das pessoas não toma conhecimento. O mercado, por outro lado, conhece e explora muito bem este sentimento.

Tudo isto é reflexo do que Viktor Frankl denominou por Vazio Existencial. As pessoas hoje tendem cada vez mais a nutrir este sentimento pela falta de Sentido em suas vidas. Conviver com este Vazio não é fácil: a todo momento os homens buscam preenche-lo e aí está o grande problema. Esta busca quase sempre está direcionada por coisas fúteis, passageiras, que não conferem Sentido algum a suas vidas.

Daí o sucesso da Black Friday. Pense nisso antes de dar o próximo clique e comprar aquele móvel que tornará sua sala única, com a sua cara. Isto pode ser apenas uma fuga deste avassalador sentimento de vazio. Do abismo que surge em nossas almas quando não temos sentido em nossas vidas. E lembre-se da famosa citação de Nietzsche:

Quando olhamos muito para o abismo, o abismo olha de volta.


Referências:

FRANKL, V. E. Psicoterapia e sentido da vida: Fundamentos da Logoterapia e Análise

Existencial. 6ª Edição. São Paulo: Quadrante, 2016.

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